Encontro com os Bispos de Madagascar na Catedral de Andohalo - Setembro de 2019

Fizemos um resumo em quatro partes. E no final colocamos o pronunciamento do Papa Fancisco na integra.

Parte 01  - Não se corromper. 

 O Papa Francisco, inicia com agradecimentos. E fala a respeito do pronunciamento anterior das boas vindas.

O Papa fala que a missão se desenrola no meio de contradições, eles tem uma terra tão rica, mas lá a pobreza é imensa; um cultura e uma sabedoria que o povo recebeu de seus antepassados, que valoriza a vida e a dignidade da pessoa humana, mas contrasta com a desigualdade e a corrupção. Nesta circunstância é difícil a tarefa do Padre (do pastor).

Por causa da desigualdade, o sacerdote corre o risco de inclina-se para um lado e deixar o outro. Ele diz " Não digo que o Sacerdote se torne um corrupto, mas o perigo existe: 'vou fazer esta obra, e aquela...' aí torna-se um homem de negócios." Ai o padre para fazer as obras, faz um favor, dar um jeitinho, faz isto em troca daquilo... E assim aquele bom padre acaba enlameado de corrupção. "Isto acontece; no mundo, acontece. Estai atentos !"

Nosso Resumo : Estejamos atentos para nós não se voltarmos para um lado ou para o outro, temos que evangelizar para todos, igualmente. Não podemos nos deixar, que em nome da evangelização, de conseguir mais espaços, de conseguir mais acessos, nos deixemos corromper, nos tornemos corruptos. Quantas propostas já nos chegaram, de pequenos favores, até de grande. Se aceitamos uma parceria, com o Google  ou com o Face Book, para conseguimos mais visualizações, não estaríamos nós nos corrompendo ? Parece coisas simples, mas não o é. Financeiramente tiraríamos vantagens, mas e a evangelização, estaríamos sendo honestos ? Por isto, meus amigos, não deixemos nos corromper no dia a dia, em coisas simples, pois assim resistiremos as que parecem grandiosas.

Parte 02   - "Semeador de Paz e Esperança"
Foi o tema da visita do Papa. É também o tema da missão que nos foi confiada, o Papa, fala da missão do clero, mas é missão de todo evangelizador). De fato, somos todos semeadores, e tem que semear esperança, temos que fazer um esforço pessoal, mas tem muitos fatores para que a semente germine, cresça, se torne espiga e, de grãos abundantes. O semeador cansado e preocupado não desanima. Assim temos que ser, quer na vida ativa ou na vida contemplativa. Sermos corajosos, não desanimar, como o semeador no campo não desanima, mesmo que a colheita não der bons resultados. Sabe esperar, assume a decepções da sua sementeira. Mas, não deixa de amar e cuidar de seu campo.
O semeador conhece a sua terra, a prepara para que possa dar bom frutos. Assim o Evangelizador é chamado a lançar a semente da fé e da esperança nesta terra. Assim também o Evangelizador, evangelizador deve conhecer melhor a sua sementeira. Ter o olfato do pastor. O Evangelizador, pode até ser inteligente, ter muitos estudos, pode ser bom, mas, se lhe falta o tal olfato, nunca poderá ser um bom Evangelizador. Tem que ter um contato com o povo, esta no meio do povo. Amar os fieis, porque o compreende. Claro, que também tem que querer o bem social, saúde, educação, etc.. O Evangelizador, tem que saber escutar seus fieis. 
Evangelizar, com discernimento. Ter uma independência, entre Igreja e o Estado. Escutando o Espírito Santo diz a Igreja, ser fermento do Evangelho. Proclamar o Evangelho incluindo todas as formas de pobrezas, não só comida, mas uma prosperidade, saúde, educação. Emprego, e um salário justo, num trabalho livre.
Anunciar o Evangelho aos pobres, e de graça, com mensagens clara, de fácil compreensão. Ter um dever particular, com os pobres, os marginalizados e os pequeninos, com as criança e pessoas mais vulneráveis, vítimas hoje de um cultura de descarte. Existe programas sociais, de descartes de pessoas através do aborto, ou eutanásia, apresando a morte da pessoa.
Semear com paciência. Um pastor que semeia evita um controle de tudo. O semeador não vai a cada dia cavar a terra para ver se a semente esta crescendo. Se você controla tudo, não deixa crescer, mas lembre-se que cada semente tem seu ritmo de crescimento, não crescem uniforme. Cada pessoa tem seu modo de ser, de crescer. A uniformidade não é um caminho cristão. Se o resultado não foi bom, paciência, na próxima vez será melhor, ou não. Tem que saber aceitar o resultado. O Evangelizador é como um goleiro de futebol, que agarra a bola do jeito que vem. Tem que se mover para pegar, pular cair saltar, saber agarrar a realidade. Isto é amor de um evangelizador.
O Bispo, tem que estar próximo de Deus, de seus Padres, e estes próximo do povo. Próximo de Deus na oração. O primeiro dever de um Evangelizador é a oração. Pergunte a si mesmo: Rezo? Quanto? Como? Isto leva a proximidade com Deus. Um Evangelizador que se afasta do povo, perde o olfato do povo, não serve para nada.

 

Parte 03 - Ordenação Sacerdotal e Religiosa

Cuidar da terra é, aguardar paciente o crescimento. Na hora da colheita, o agricultor avalia a qualidade do que colheu e do trabalhador. Assim também os Bispos tem o dever de ver a qualidade de quem ele vai consagrar, seja para sacerdote ou vida religiosa. Por isto tem que estar atento, para não se deixar enganar, pela necessidade e o número: "Temos necessidade de sacerdotes e, porque preciso, acolho sem discernimento as vocações". Creio que não estais fazendo, isto; estão procurando pessoas com vocações, e procedem com serenidade a este respeito. Mas em alguns lugares, principalmente na Europa, é lamentável, por falta de vocações o Bispo acaba ordenando qualquer um, sem verificar a vida que levava; acolhem pessoas "expulsas" de outros Seminários, "expulsas" da vida religiosa, pessoas expulsas por imoralidade ou por outras deficiências. Por favor, estais atentos. Não façais entrar o lobo no rebanho. A messe é grande, e o Senhor, quer autênticos trabalhadores. Depois de escolher os candidatos ao sacerdócio e á vida consagrada destina-se a assegurar um amadurecimento e uma purificação das intenções. A pessoa tem que ter vocação apostólica, a vocação é fundamental, pois são chamadas a santidade, que é o rosto mais belo da Igreja. Espero que os Bispos façam um esforço para garantir a formação de autênticos e santos trabalhadores para a messe do Senhor.

Além disso, assinalo um comportamento que não gosto, porque não vem de Deus: a rigidez. Hoje está na moda, encontrar pessoas rígidas. Padre jovens, que querem salvar com rigidez. Um rigidez de museu. Têm medo de tudo. Olha, que há sob toda rigidez, graves problemas.

Parte 04 - Quanto aos leigos. E consideração final.

Também na escolha do leigo é necessário a observância de seus valores, morais. O fiéis-leigos, também, são enviados para a messe, são chamados a participar na pesca, a jogar a rede. O mundo e grande e vasto, tem seus problemas e suas mudanças, onde os fiéis são chamados a trabalhar, generosamente e responsável, levando o fermento do Evangelho. O Papa cumprimenta os  Bispos e Padre que formam os leigos, os agradece por isto, e pede que não os deixe sozinhos na missão de serem sal da terra e luz do mundo, para ajudar a transformar a sociedade e a Igreja.

O Papa Francisco recomenda: "Por favor, não clericalizeis os leigos. Os leigos são leigos e não clero." E continua dizendo, que quando era bispo, ouvia estas propostas: "Senhor Bispo, na paróquia tem um leigo maravilhoso, ele é que organiza tudo... Podemos fazê-lo diácono ?" o Papa responde: "deixa-o assim, como leigo".

Papa Francisco fala que, muitas vezes o diácono, tem a tentação de estar no lugar do clero, sente-se presbíteros ou bispos falhados. Mas, o diácono é o guardião do serviço na Igreja. Por favor, não mantenhais os diáconos no altar. Façam os trabalhos fora, no serviço. Se tiverem que ir em missão para batizar, que batizem. Está Bem! Mas, no serviço, não se comportem como sacerdotes falhados.

Finalizando o Papa, saúda os sacerdotes, os religioso e religiosas que estão doentes ou limitados pela idade. E pergunta aos Bispo, "e vós, vão visita-los ?" Isto, também serve para nós, leigos, estamos visitando nosso idosos e doentes?. O Papa nos pede para cuidarmos deles, os sustentando pela missão de intercessão, ou seja que rezemos por eles e com eles. 

Que  Deus nos ajudem a semear a paz e a esperança. E que nós nos tornemos semeadores do Evangelho, levando o Amor de Deus para as pessoas, com palavra e exemplo de vida.

 

Pronunciamento completo do Papa Francisco 

Obrigado, Senhor Cardeal, pelas suas palavras de boas-vindas em nome de todos os irmãos. Agradeço também por ter querido, com as mesmas palavras, mostrar como a missão que abraçamos se desenrola no meio de contradições: uma terra rica e tanta pobreza; uma cultura e uma sabedoria herdadas dos antepassados, que nos fazem valorizar a vida e a dignidade da pessoa humana, mas temos também de constatar a desigualdade e a corrupção. Nestas circunstâncias, é difícil a tarefa do pastor. Nomeadamente pelas desigualdades: o pastor corre o risco de inclinar-se para um lado e deixar os outros. E também pela corrupção. Não digo que o pastor se torne um corrupto, mas o perigo existe: «vou fazer esta obra, e aquela…», e torna-se um homem de negócios; ou então farei este favor, darei este jeito, farei esta troca… e assim aquele bom pastor acaba enlameado de corrupção. Isto acontece; no mundo, acontece. Estai atentos!

«Semeador de paz e de esperança» é o tema escolhido para esta visita, mas nele pode ecoar também a missão que nos foi confiada. De facto, somos semeadores, e aquele que semeia fá-lo na esperança; fá-lo contando com o seu esforço e empenho pessoal, mas sabendo que há muitos fatores que têm de concorrer para que a semente germine, cresça, se torne espiga e, por fim, grão abundante. O semeador cansado e preocupado não desanima. Esta palavra sempre nos deve acompanhar quer na vida ativa quer na contemplativa, como vimos hoje [no encontro com as Irmãs de clausura]: Sede corajosos! Sê um homem corajoso! A coragem. O semeador cansado e preocupado não desanima, não desiste, nem pega fogo ao seu campo quando algo corre mal. Sabe esperar, confia, assume as decepções da sua sementeira. Mas nunca cessa de amar este campo confiado aos seus cuidados. E embora às vezes lhe venha a tentação de o fazer, não o abandona nem confia a outrem.

O semeador conhece a sua terra, «palpa-a», «sente-a» e prepara-a para que possa dar o melhor de si mesma. Como o Semeador, nós, bispos, somos chamados a lançar as sementes da fé e da esperança nesta terra. Para isso, devemos desenvolver este «olfato» que nos permite conhecer melhor e também descobrir o que compromete, dificulta ou arruina a sementeira. O olfato do pastor. O pastor pode ser muito inteligente, ter títulos académicos, ter participado em muitos congressos internacionais; pode saber tudo, estudar tudo; pode até ser bom, uma pessoa boa, mas, se lhe falta o tal olfato, nunca poderá ser um bom pastor. O olfato. Assim, «os pastores, acolhendo as contribuições das diversas ciências, têm o direito de exprimir opiniões sobre tudo aquilo que diz respeito à vida das pessoas, dado que a tarefa da evangelização implica e exige uma promoção integral de cada ser humano. Não se pode afirmar que a religião deve limitar-se ao âmbito privado e serve apenas para preparar as almas para o céu. Esta é a ideia que nos deixou o Iluminismo neoliberal: trabalhavam também para o povo. É verdade: tudo para o povo, mas nada com o povo! Sem o relacionamento com o povo, sem o olfato… Pelo contrário, o verdadeiro pastor está no meio do povo, imerso entre as pessoas, no amor do seu povo, porque o compreende. Sabemos que Deus deseja a felicidade dos seus filhos também nesta terra, embora estejam chamados à plenitude eterna, porque Ele criou todas as coisas “para nosso usufruto” (1 Tm 6, 17), para que todos possam usufruir delas. Por isso, a conversão cristã exige rever especialmente tudo o que diz respeito à ordem social e consecução do bem comum. Por conseguinte, ninguém pode exigir-nos que releguemos a religião para a intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influência na vida social e nacional, sem nos preocupar com a saúde das instituições da sociedade civil, sem nos pronunciar sobre os acontecimentos que interessam aos cidadãos» (Francisco, Exort. ap. 

 Evangelii gaudium,Ev 182-183). O pastor no meio do povo. O pastor que sabe escutar a linguagem do povo. O pastor ungido pelo povo, a quem serve, de quem é servidor.

Sei que não faltam motivos de preocupação e que, entre outras coisas, carregais no coração a responsabilidade de velar pela dignidade dos vossos irmãos, que pedem para se construir uma nação cada vez mais solidária e próspera, dotada de instituições sólidas e estáveis. Pode um pastor digno deste nome ficar indiferente aos desafios que enfrentam os seus compatriotas de todas as categorias sociais, independentemente da sua pertença religiosa? Pode um pastor segundo o estilo de Jesus ser indiferente às vidas que lhe estão confiadas?

A dimensão profética ligada à missão da Igreja requer, sempre e em toda parte, um discernimento que em geral não é fácil. Neste sentido, a colaboração madura e independente entre a Igreja e o Estado é um desafio permanente, porque o perigo de conluio nunca está longe, sobretudo se chegamos a perder o ardor evangélico. Escutando sempre aquilo que o Espírito diz sem cessar às Igrejas (cf. Ap 2, 7), seremos capazes de escapar às ciladas, libertar o fermento do Evangelho para uma colaboração frutuosa com a sociedade civil na busca do bem comum. A marca distintiva deste discernimento será a vossa preocupação por que a proclamação do Evangelho inclua todas as formas de pobreza: não apenas «garantir a comida ou um decoroso “sustento” para todos, mas prosperidade e civilização em seus múltiplos aspetos. Isto engloba educação, acesso aos cuidados de saúde e especialmente trabalho, porque, no trabalho livre, criativo, participativo e solidário, o ser humano exprime e engrandece a dignidade da sua vida. O salário justo permite o acesso adequado aos outros bens que estão destinados ao uso comum» (Exort. ap. Evangelli gaudium, 192).

A defesa da pessoa humana é outra dimensão do nosso empenho pastoral. Para ser pastores segundo o coração de Deus, devemos ser os primeiros na opção de anunciar o Evangelho aos pobres. «Não devem subsistir dúvidas nem explicações que debilitem esta mensagem claríssima. Hoje e sempre, os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho, e a evangelização dirigida gratuitamente a eles é sinal do Reino que Jesus veio trazer. Há que afirmar sem rodeios que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres. Não os deixemos jamais sozinhos!». Por outras palavras, temos um dever particular de proximidade e proteção para com os pobres, os marginalizados e os pequeninos, para com as crianças e as pessoas mais vulneráveis, vítimas de exploração e abusos, vítimas, hoje, desta cultura do descarte. Hoje a mundanidade levou-nos a inserir nos programas sociais, nos programas de desenvolvimento, o descarte como uma possibilidade: o descarte de quem está para nascer e o descarte de quem está para morrer, para lhe apressar a partida.

Este vasto campo não é desbravado e arroteado apenas pelo espírito profético, mas espera também a semente lançada à terra com paciência cristã, cientes ainda de que não temos o controle nem a responsabilidade de todo o processo. Um pastor que semeia evita de controlar tudo. Não se pode. O semeador não vai cada dia escavar a terra para ver como cresce a semente. Um pastor evita controlar tudo – os pastores controladores não deixam crescer –, dá azo às iniciativas, deixa crescer segundo etapas diferentes – nem todos têm o mesmo ritmo de crescimento – e não procura a uniformidade: a uniformidade não é vida; a vida é variegada. Cada qual tem o seu modo de ser, o próprio modo de crescer, o próprio modo de ser pessoa. A uniformidade não é um caminho cristão. O verdadeiro pastor não tem pretensões irrazoáveis, não despreza os resultados aparentemente mais mingados: «Esta vez andou assim… paciência, vamos para diante! Na próxima, será melhor». Sabe sempre aceitar os resultados como vêm. Deixai que vos diga qual é a imagem que, às vezes, me vem à cabeça quando penso na vida do pastor. O pastor deve agarrar a vida donde ela vem, com os resultados que tiver. O pastor é como o guarda-redes duma equipa de futebol: agarra a bola donde lha mandam. Sabe mover-se, sabe agarrar a realidade como chega. E corrigir as coisas… depois; mas, na hora, agarra a vida como vem. Isto é amor de pastor. Isto manifesta uma fidelidade ao Evangelho que faz de nós pastores próximos também do povo de Deus, a começar pelos nossos irmãos sacerdotes – são eles os nossos irmãos mais próximos – que devem beneficiar de um cuidado especial da nossa parte.

O pastor deve estar próximo de Deus, dos seus sacerdotes, próximo do povo. Estas são as três proximidades do pastor. Próximo de Deus na oração. Não esqueçamos que, na ocasião em que os Apóstolos «inventaram» os diáconos (já disse isto muitas vezes), Pedro, para justificar a nova invenção, disse: «A nós [os Apóstolos], compete a  oração e o anúncio da Palavra». O primeiro dever do pastor, é rezar. Cada um de vós pergunte a si mesmo: Rezo? Quanto? Como? Proximidade de Deus. Proximidade dos sacerdotes: os sacerdotes são o próximo mais próximo do Bispo. «Telefonei ao Bispo, atendeu-me a secretária dizendo que, nos próximos três meses, não havia espaço na agenda do Bispo para uma audiência». Conselho dum irmão! Se te deres conta de que a tua secretária te deixa na lista o telefonema dum sacerdote, naquele mesmo dia ou, o mais tardar, no dia seguinte, chama-o. Talvez não tenhas tempo para o receber, mas chama-o. Aquele sacerdote saberá que tem um pai! E a terceira proximidade: proximidade do povo. O pastor que se afasta do povo, que perde o olfato do povo, termina como um “Monsieur l’Abbé”, um funcionário de corte… corte pontifícia, importante, mas no fim de contas sempre corte é! E isto não serve.

Há pouco tempo, falava aos bispos italianos da solicitude por que os nossos sacerdotes possam encontrar no seu bispo a figura do irmão mais velho e do pai que os encoraja e apoia no caminho (cf. Discurso à Conferência Episcopal Italiana, 20 de maio de 2019). Tal é a paternidade espiritual, que impele o bispo a não deixar órfãos os seus sacerdotes, podendo-se «tocar com a mão» não apenas na capacidade de manter abertas as portas a todos os sacerdotes, mas também na preocupação de sair à sua procura para os acompanhar quando atravessam um momento difícil.

Nas alegrias e dificuldades inerentes ao ministério, os sacerdotes devem encontrar, em vós, queridos bispos, pais sempre disponíveis que saibam como encorajar e apoiar, que saibam apreciar os esforços e acompanhar os progressos possíveis. A propósito, observou o Concílio Vaticano II: os bispos «abracem sempre com especial caridade os sacerdotes, que compartilham das suas funções e solicitude, e tão zelosamente satisfazem esses  deveres com o trabalho de cada dia, considerando-os como filhos e amigos, e, portanto, mostrando-se prontos a ouvi-los e tratando-os com confiança, procurem dar nova vida a toda a atividade pastoral da diocese inteira» (Decr. Christus Doinus, 16).

Cuidar da terra implica também aguardar pacientemente o crescimento. O pastor sabe dar tempo aos processos. E, na hora da colheita, o agricultor avalia também a qualidade dos trabalhadores. Isto impõe-vos, como pastores, um urgente dever – estou a falar da qualidade dos trabalhadores – um urgente dever de acompanhamento e discernimento, sobretudo no que se refere às vocações para a vida consagrada e o sacerdócio; isso é fundamental para garantir a autenticidade das mesmas. Quanto a isto, recomendo: Estai atentos. Não vos deixeis enganar pela necessidade e o número: «Temos necessidade de sacerdotes e, porque preciso, acolho sem discernimento as vocações». Não sei! Creio que isto, entre vós, não seja tão frequente porque tendes vocações, o que vos permite uma certa liberdade de proceder com sereno discernimento. Mas, em alguns países da Europa, é lamentável: a falta de vocações impele o bispo a acolhê-las dum lado e doutro, sem verificar que vida tinham; acolhem pessoas «expulsas» doutros Seminários, «expulsas» da vida religiosa, que foram expulsas por imoralidade ou por outras deficiências. Por favor, estai atentos. Não façais entrar o lobo no rebanho. A messe é grande, e o Senhor, cujo único anelo é mandar-lhe autênticos trabalhadores, não conhece limites na maneira de chamar, de incitar ao dom generoso da própria vida. Depois da escolha, a formação dos candidatos ao sacerdócio e à vida consagrada destina-se precisamente a assegurar um amadurecimento e uma purificação das intenções. A este respeito e no espírito da Exortação apostólica Gaudete et exsultate, gostaria de assinalar que a vocação fundamental sem a qual as outras não têm razão de ser é a chamada à santidade e que esta «santidade é o rosto mais belo da Igreja» (n. 9). Aprecio os vossos esforços para garantir a formação de autênticos e santos trabalhadores para a messe abundante no campo do Senhor.

Além disso, gostaria de assinalar um comportamento de que não gosto, porque não vem de Deus: a rigidez. Hoje está na moda – aqui não sei; mas noutras partes, sim – está na moda, encontrar pessoas rígidas. Padres jovens, rígidos, que querem salvar com a rigidez. Adotam uma atitude de rigidez e, às vezes – desculpai – uma rigidez de museu. Têm medo de tudo; são rígidos. Tende cuidado! Sabei que há, sob toda a rigidez, graves problemas.

Este esforço deve estender-se também ao vasto mundo do laicado; também os fiéis-leigos são enviados para a messe, são chamados a participar na pesca, a arriscar redes e tempo no «seu apostolado multiforme tanto na Igreja como no mundo» (Conc. Ecum. Vat. II, Decl. Apostolicam actuositatem, 9). Com toda a sua extensão, os seus problemas e as suas mudanças, o mundo constitui o campo específico de apostolado, onde os fiéis-leigos são chamados a trabalhar, generosa e responsavelmente, levando-lhe o fermento do Evangelho. Por isso mesmo, gostaria de congratular-me com todas as iniciativas que tomais como pastores para formar os leigos – obrigado por isso – e não os deixar sozinhos na missão de serem sal da terra e luz do mundo, tendo em vista contribuir para a transformação da sociedade e da Igreja em Madagáscar. E uma recomendação: Por favor, não clericalizeis os leigos. Os leigos são leigos. Na minha diocese anterior, ouvi propostas como esta: «Senhor bispo, na paróquia tenho um leigo maravilhoso: trabalha, ele é que organiza tudo... Podemos fazê-lo diácono?» Deixa-o assim, não lhe arruínes a vida, deixa-o leigo. E, por falar em diáconos, muitas vezes estes sofrem a tentação do clericalismo, sentem-se presbíteros ou bispos falhados. Mas não é verdade! O diácono é o guardião do serviço na Igreja. Por favor, não mantenhais os diáconos no altar. Façam os trabalhos fora, no serviço. Se tiverem que ir em missão para batizar, que batizem. Está bem! Mas, no serviço, não se comportem como sacerdotes falhados.

Amados irmãos, toda esta responsabilidade no campo de Deus deve desafiar-nos a manter o coração e o espírito abertos, esconjurar o medo que nos fecha e vencer a tentação de nos isolarmos: que o diálogo fraterno entre vós (é importante!), bem como a partilha dos dons e a colaboração entre as Igrejas particulares do Oceano Índico constituam um caminho de esperança. Diálogo e colaboração. A semelhança de desafios pastorais, tais como a proteção do meio ambiente num espírito cristão ou o problema da imigração, requer, para uma abordagem eficaz, reflexões comuns e uma ampla sinergia de ações.

Por fim gostaria, através de vós, de saudar de maneira especial os sacerdotes, os religiosos e religiosas que estão doentes ou limitados pela idade. Deixo esta pergunta para cada um de vós: vou visitá-los? Peço-vos para lhes manifestardes o meu afeto e a minha proximidade na oração e também para cuidardes deles com ternura sustentando-os na bela missão de intercessão.

Duas mulheres protegem esta Catedral: na capela aqui ao lado, repousam os restos da Beata Vitória Rasoamanarivo, que soube fazer o bem, defender e espalhar a fé em tempos difíceis; e temos a imagem da Virgem Maria que parece, com seus braços abertos para o vale e as colinas, abraçar tudo. Pedimos, a ambas, que dilatem sempre o nosso coração, que nos ensinem aquela compaixão oriunda do seio materno que a mulher e Deus sentem face aos esquecidos da terra e que nos ajudem a semear a paz e a esperança. 

Papa Francisco.